Vivemos em um mundo onde o dinheiro se tornou o deus ao qual muitos servem. Ele dita nossas relações, estrutura nossas sociedades e define o valor das pessoas. Jesus, porém, advertiu: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6:24). Mamom, aqui, representa não apenas a riqueza em si, mas o espírito de avareza e idolatria ao dinheiro, que corrompe e escraviza.
A Ilusão da Riqueza e a Realidade da Injustiça
O sistema econômico atual constrói muros ao invés de pontes. Uns acumulam fortunas que jamais poderão gastar, enquanto milhões vivem sem o mínimo necessário para sobreviver. Essa desigualdade brutal não é uma falha no sistema; é o próprio sistema. Tolstói escreveu que “dinheiro é um novo tipo de escravidão, distinto da antiga simplesmente porque é impessoal – não há uma relação humana entre senhor e escravo”. O dinheiro, usado como instrumento de poder, subjuga multidões e cria abismos entre irmãos.
A Palavra de Deus nos chama a outra lógica: a lógica do Reino, onde os últimos serão os primeiros e onde os bens não são acumulados, mas compartilhados. “Acaso não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras do jugo, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo?” (Isaías 58:6). Não podemos aceitar uma sociedade onde poucos governam pela posse enquanto a maioria sobrevive pelo trabalho explorado.
Profanar o Deus Dinheiro
Diante de um sistema que endeusa a riqueza, nossa missão não é reformá-lo, mas profaná-lo. Jacques Ellul dizia que o dinheiro tem um poder quase religioso sobre as pessoas, mas ele precisa ser colocado em seu devido lugar: como servo, não como senhor. Devemos ressignificar sua função, usá-lo para suprir necessidades e não para criar castelos de privilégio.
Jesus profanou o templo quando viu que a casa de oração havia sido transformada em um mercado (Mateus 21:12-13). Ele derrubou as mesas dos cambistas e denunciou a comercialização da fé. Hoje, o templo do dinheiro se ergue sobre os pobres, sobre os explorados, sobre aqueles que são descartados pelo sistema. E cabe a nós, como discípulos, virar essas mesas.
Amar ao Próximo Como Ato de Rebeldia
Em um mundo onde a busca pelo lucro se sobrepõe à dignidade humana, amar ao próximo é um ato de resistência. Jesus nos deu o mandamento fundamental: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:31). Esse amor não é abstrato; ele se concretiza no cuidado com os marginalizados, na partilha dos bens, na luta contra sistemas opressores que perpetuam a miséria.
Se queremos seguir a Cristo, não podemos aceitar a idolatria ao dinheiro. Precisamos romper com a mentalidade que mede valor pela conta bancária e construir uma sociedade onde o essencial seja acessível a todos. Onde há fome, que haja pão. Onde há injustiça, que haja justiça. Onde há exploração, que haja libertação.
O Chamado à Verdadeira Riqueza
O dinheiro não pode ser nosso deus. Ele deve ser profanado, quebrado como ídolo, usado como ferramenta para o bem e não como instrumento de opressão. Jesus nos chama a uma vida onde o amor e a justiça são os princípios fundamentais, onde ninguém passa necessidade porque todos aprendem a carregar as cargas uns dos outros.
O Reino de Deus não é um sonho distante; é uma realidade que começa quando decidimos resistir à idolatria da riqueza e abraçar a simplicidade, a partilha e a compaixão. Pois, no fim, “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6:21).